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Suplementação de Bovinos a Pasto para Ganho de Peso

Guia técnico completo sobre sal mineral, proteinado, energético, ureia, creep feeding e ionóforos — com estratégias por época do ano e por categoria animal, pensado para o pecuarista do RS, SC e PR.

-96 a +357 g
variação no ganho de peso/dia conforme o suplemento usado na seca
Fonte: SciELO/RBZ
300–500 g
ganho/cabeça/dia esperado com suplementação proteico-energética
Fonte: Embrapa Gado de Corte
+5 a 10%
GMD adicional relatado com uso de monensina (ionóforo) a pasto
Fonte: Translational Animal Science
900 g–1 kg
ganho/dia de bezerros em creep feeding, contra 500–600 g sem
Fonte: Embrapa Pantanal
Contexto

Por que suplementar bovinos a pasto

No Brasil, mais de 95% do rebanho de corte é criado a pasto, e a forragem é o alimento mais barato disponível para os animais, o que torna a suplementação estratégica — e não a substituição do pasto — o caminho mais viável para ganhar peso com custo controlado, segundo o capítulo técnico da Embrapa Gado de Corte sobre estratégias alimentares a pasto.

O problema é que a produção de forragem no Brasil é fortemente sazonal. Na estação das águas, o pasto cresce rápido e tem boa qualidade nutricional; na seca (ou, no Sul do Brasil, no chamado vazio forrageiro de outono-inverno), a produção de forragem despenca e a planta envelhece, perdendo valor nutritivo — mesmo quando ainda há alguma quantidade de massa verde no campo. O resultado, sem intervenção, é perda de peso ou ganhos muito baixos nesse período, como descreve a própria Embrapa.

No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná esse efeito é ainda mais evidente por causa do inverno mais rigoroso: geadas frequentes fazem as pastagens de verão (como as de campo nativo) secarem e pararem de crescer, enquanto as pastagens de inverno cultivadas ainda não estão prontas para uso, criando o período crítico de março a junho conhecido regionalmente como vazio forrageiro outonal, conforme aponta a Secretaria da Agricultura do RS e reforça a própria Embrapa.

"A suplementação estratégica, principalmente na seca e quando corretamente realizada, faz com que a perda de peso seja revertida para ganhos moderados ou, pelo menos, que haja a manutenção de peso dos animais."
— Embrapa Gado de Corte, Estratégias alimentares para gado de corte: suplementação a pasto, semiconfinamento e confinamento
Nutrição por fase

Exigências nutricionais por categoria animal

As exigências de proteína, energia e minerais mudam bastante conforme a fase de produção. Conhecer essas fases ajuda a decidir quando e como suplementar, segundo dados compilados pela CPT e pela própria Embrapa em seu capítulo sobre exigências nutricionais de bovinos de corte.

Cria (bezerro ao pé da vaca)

Nasce com cerca de 30 kg e depende do leite materno nos primeiros meses, passando a consumir pasto e mistura mineral gradualmente até a desmama, por volta dos 8 meses e ~140 kg.

Estratégia típica: sal mineral para bezerros + creep feeding quando o objetivo é desmame precoce e pesado.

Recria

Fase de maior sensibilidade à sazonalidade forrageira: a pastagem é praticamente o único alimento, e a queda de qualidade na seca pode gerar perda de peso sem suplementação adequada.

Estratégia típica: sal mineral nas águas; proteinado com ureia ou proteico-energético na seca.

Terminação/engorda

Novilhos a partir de ~300 kg precisam ganhar musculatura e acabamento de carcaça rapidamente para reduzir o tempo até o abate.

Estratégia típica: suplementação energética de alto consumo, semiconfinamento ou confinamento, muitas vezes com ionóforos.

Vaca de cria

Precisa manter escore de condição corporal adequado (idealmente entre 3,0 e 3,5 em escala de 1 a 5, ou equivalente na escala de 1 a 9) para reduzir o intervalo entre partos e melhorar a taxa de concepção.

Estratégia típica: sal mineral o ano todo, reforçado com proteinado/ureia na seca e pré-parto.

Do básico ao avançado

Tipos de suplemento a pasto

Os suplementos costumam ser classificados pelo nível de consumo em relação ao peso vivo (PV): suplementos proteicos de baixo consumo giram em torno de 0,1% do PV, os proteico-energéticos em torno de 0,3% do PV, os energéticos ficam acima de 0,3% do PV, e a partir de 0,7% do PV já se trata de ração, segundo classificação descrita por fontes técnicas como NutriMosaic e De Heus.

Sal mineral

Fornece macro e microminerais (Ca, P, Na, Zn, Cu etc.) sem função relevante de ganho de peso. É indispensável o ano todo, pois pesquisas da Embrapa mostram que mais de 70% das amostras de pastagens brasileiras têm minerais como Na, Zn, Cu e P abaixo do necessário.

Consumo de referência: ~70–100 g/cabeça/dia. Fonte: Embrapa.

Proteinado (mistura múltipla)

Suplemento de baixo consumo com pelo menos 20–30% de proteína bruta, considerado a melhor relação custo-benefício em pastagens com boa disponibilidade de forragem.

Consumo: 1–2 g/kg PV. Ganho esperado: 150–400 g/cabeça/dia. Fonte: Embrapa.

Energético

Rico em carboidratos (milho, sorgo, subprodutos), usado quando a energia é o principal fator limitante, geralmente em pastagens de melhor qualidade proteica mas baixo valor energético.

Consumo acima de ~0,3% do PV. Fonte: Embrapa.

Proteico-energético

Combina fontes proteicas e energéticas para maximizar o aproveitamento da forragem de baixa qualidade, indicado principalmente na recria durante a seca.

Consumo: ~200 g/100 kg PV. Ganho esperado: 300–500 g/cabeça/dia. Fonte: Embrapa.

Ureia

Fonte de nitrogênio não proteico, mais indicada na seca, misturada ao sal mineral ou ao proteinado. Exige adaptação gradual dos animais e cuidados rígidos para evitar intoxicação amoniacal.

Limite: ~30 g/100 kg PV/dia (máx. 200 g/animal/dia). Fonte: Fundação Rogê.

Creep feeding

Ração oferecida em cocho de acesso exclusivo dos bezerros, ainda mamando, para complementar o leite da vaca e antecipar o desenvolvimento ruminal.

Ganho relatado: 900 g–1 kg/dia (vs. 500–600 g/dia sem). Fonte: Embrapa Pantanal.

Ionóforos (ex.: monensina)

Aditivo que altera a fermentação ruminal, reduzindo a produção de ácido acético e aumentando a de ácido propiônico, o que melhora a eficiência alimentar e pode reduzir o risco de timpanismo a pasto.

Ganho adicional relatado: 5–10% acima do controle. Fontes: Journal of Animal Science e Translational Animal Science.

Ferramenta interativa

Calculadora de consumo de suplemento

Informe o peso vivo médio do lote e o objetivo/categoria para ver uma estimativa educativa de quanto suplemento oferecer por cabeça/dia. Esta calculadora não substitui a recomendação de um zootecnista ou nutricionista — é um ponto de partida para a conversa.

Estimativa educativa baseada em faixas de referência da Embrapa e da literatura técnica de nutrição de bovinos. Fatores como qualidade da forragem, raça, sanidade e clima alteram a resposta real do lote — sempre valide com um responsável técnico.

A outra metade da equação

Manejo de pastagem associado à suplementação

Suplementar sem ter forragem suficiente no piquete tem retorno muito limitado. A Embrapa recomenda o diferimento (vedação) de parte das pastagens antes da seca, retirando os animais para permitir o acúmulo de 4 a 6 toneladas de matéria seca por hectare antes do período crítico, de forma que haja massa suficiente para sustentar os lotes em suplementação ao longo de toda a entressafra — ver Embrapa Gado de Corte.

Outros pontos de manejo que afetam diretamente a resposta à suplementação:

Lotação adequada

Recomenda-se lotação próxima de 1 unidade animal (UA) por hectare durante a suplementação estratégica na seca; lotações maiores só se justificam com alta disponibilidade de forragem.

Espaço de cocho

Sal com ureia pede ao menos 6 cm lineares por animal; proteinado, de 12 a 15 cm; e semiconfinamento, cerca de 60 cm por cabeça — espaço insuficiente gera competição e consumo desigual no lote.

Rotação de piquetes

Alternar áreas de pastejo permite que a forragem se recupere entre ciclos, mantendo melhor qualidade média ao longo do ano e reduzindo a pressão sobre pastagens já debilitadas pelo inverno.

Cuidado

Erros comuns na suplementação a pasto

Suplementar sem forragem suficiente

Oferecer proteinado ou energético em pasto muito baixo ou raleado não sustenta o ganho de peso esperado — o suplemento complementa a forragem, não a substitui.

Ureia sem adaptação

Introduzir ureia de forma abrupta, ou fornecê-la a animais em jejum/muito magros, é uma das principais causas de intoxicação amoniacal em bovinos.

Cocho insuficiente

Espaço linear de cocho abaixo do recomendado gera disputa, faz os animais mais fracos consumirem menos que o planejado e distorce os resultados do lote.

Abastecimento irregular

Deixar o cocho vazio por vários dias seguidos reduz a eficiência da suplementação; a Embrapa recomenda não ultrapassar uma semana entre reposições.

Não monitorar o consumo real

Sem pesar/estimar o consumo, é comum o lote consumir muito mais ou muito menos suplemento do que o planejado, encarecendo o custo por arroba ou reduzindo o ganho esperado.

Ignorar a queda de eficiência marginal

Dobrar a quantidade de suplemento não dobra o ganho de peso — a eficiência cai a cada quilo adicional, por isso a relação custo-benefício deve ser sempre reavaliada.

Monitoramento

Como avaliar se a suplementação está funcionando

Ganho médio diário (GMD)

Obtido a partir de pesagens periódicas do lote (por exemplo, a cada 28 dias). É o indicador mais direto de resposta à suplementação e deve ser comparado entre diferentes estações do ano para o mesmo lote, segundo a Pecuária de Precisão.

Escore de condição corporal (ECC)

Avaliação visual e por palpação da cobertura de gordura e musculatura, em escala de 1 a 9 para bovinos de corte. Vacas com ECC entre 3,0 e 3,5 (numa escala de 1 a 5) tendem a voltar ao cio mais cedo e concebem melhor, segundo a Rehagro.

Consumo real de cocho

Comparar o consumo observado com o planejado ajuda a corrigir a formulação (por exemplo, reduzir sal comum se o consumo estiver baixo, ou aumentá-lo se estiver alto), conforme orientação da Embrapa.

Qual caminho seguir

Suplementação a pasto x semiconfinamento x confinamento

As três estratégias não são excludentes — muitas propriedades do Sul do Brasil combinam suplementação a pasto na maior parte do ano com semiconfinamento ou confinamento pontual para acelerar a terminação, como descreve o capítulo técnico da Embrapa Gado de Corte.

Critério Suplementação a pasto Semiconfinamento Confinamento
Investimento em infraestrutura Baixo Baixo a moderado (cochos simples) Alto (currais, cochos, maquinário)
Ganho de peso esperado 150–500 g/cabeça/dia Superior ao pasto, dependendo do nível de concentrado (0,7%–2% PV) O mais alto e mais previsível dos três
Flexibilidade financeira Alta — fácil de ajustar ou suspender Alta — decisão pode ser tomada por safra Menor — exige planejamento e capital de giro
Mão de obra e gestão Baixa a moderada Moderada Alta — exige acompanhamento técnico próximo
Quando faz mais sentido Manutenção e recria durante boa parte do ano Terminação na seca, aproveitando pasto diferido como volumoso Terminação rápida, giro de capital e liberação de pasto para outras categorias
Autoavaliação

Quiz: qual suplementação minha propriedade precisa?

Responda 4 perguntas rápidas e receba uma indicação inicial do tipo de suplemento mais adequado para o momento da sua propriedade.

Pergunta 1 de 4

1. Qual a época do ano atual?

2. Como está a disponibilidade de forragem hoje?

3. Qual o objetivo principal com o rebanho agora?

4. Qual a categoria predominante do rebanho?

Dúvidas frequentes

FAQ

Qual a diferença entre sal mineral e sal proteinado?

O sal mineral fornece apenas macro e microminerais, sem função relevante de ganho de peso, sendo usado o ano todo para corrigir carências das pastagens brasileiras. O sal proteinado (mistura múltipla) tem pelo menos 20 a 30% de proteína bruta e, além de minerais, fornece nitrogênio e energia que aumentam consumo e digestibilidade da forragem, gerando ganho de peso — ver Embrapa.

Posso usar ureia o ano todo?

É mais recomendado e mais custo-efetivo na seca, quando a forragem tem baixo teor de proteína. É indispensável fazer adaptação gradual, respeitar o limite de ~30 g/100 kg PV/dia (máx. 200 g/animal/dia) e nunca oferecer a animais em jejum ou muito magros — ver Fundação Rogê e Compre Rural.

Quanto suplemento devo oferecer por cabeça ao dia?

Sal mineral: ~70–100 g/UA/dia. Proteinado de baixo consumo: 1–2 g/kg PV. Proteico-energético: 2–3 g/kg PV. Ração de semiconfinamento: 0,7%–2% do PV — ver Embrapa. Use a calculadora deste guia como ponto de partida.

Ionóforos como a monensina podem ser usados em qualquer categoria a pasto?

A monensina é bem estudada em recria e terminação a pasto, com ganhos adicionais relatados na literatura — ver Journal of Animal Science. O uso deve seguir bula e orientação de um responsável técnico quanto a categoria, dose e carência.

A suplementação substitui o manejo de pastagem?

Não. Sem massa de forragem mínima, mesmo o melhor suplemento perde eficiência. Diferimento de pastagens, lotação adequada e rotação de piquetes são complementares — ver Embrapa.

Qual o intervalo ideal para abastecer o cocho de proteinado?

O mais frequente possível dentro da realidade da propriedade, evitando intervalos maiores que uma semana, conforme recomenda a Embrapa.

Como sei se a suplementação está realmente funcionando?

Acompanhe o ganho médio diário (GMD) por pesagens periódicas e o escore de condição corporal (ECC) do lote — ver Rehagro e Pecuária de Precisão.

Vale mais a pena suplementar a pasto ou confinar?

Depende do objetivo, capital disponível e época do ano — muitas propriedades combinam as três estratégias ao longo do ano, como mostra o comparativo da Embrapa.

Termos técnicos

Glossário

GMD
Ganho Médio Diário: quantidade de peso vivo ganha por dia, geralmente medida em gramas ou quilos por cabeça.
PV
Peso Vivo: peso total do animal, usado como referência para calcular quantidades de suplemento.
UA
Unidade Animal: referência de lotação equivalente a um bovino adulto de ~450 kg.
Ureia
Fonte de nitrogênio não proteico usada para estimular a síntese de proteína microbiana no rúmen; exige adaptação e controle rígido de dose.
Ionóforo
Aditivo (ex.: monensina) que altera a fermentação ruminal, melhorando a eficiência alimentar e reduzindo o risco de timpanismo.
Proteinado
Suplemento mineral proteico, também chamado de mistura múltipla, com pelo menos 20–30% de proteína bruta.
ECC
Escore de Condição Corporal: avaliação visual/tátil do estado nutricional do animal, em escala de 1 a 9 (bovinos de corte).
Creep feeding
Fornecimento de ração em cocho de acesso restrito, exclusivo para bezerros ainda mamando.
Vazio forrageiro
Período de escassez de forragem de qualidade, ligado à seca (regiões tropicais) ou ao inverno/geadas (Sul do Brasil).
Diferimento (vedação)
Prática de retirar animais de uma área de pasto para permitir acúmulo de forragem antes do período crítico.
Semiconfinamento
Sistema em que o pasto ainda é a base volumosa, complementado por altos níveis de concentrado em cocho.
NDT
Nutrientes Digestíveis Totais: medida do valor energético de um alimento.
Fontes consultadas

Referências

Este guia foi elaborado com base nas seguintes fontes técnicas e científicas:

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